Falando da Vida

Um blog de reflexões sobre a vida. Espaço de temas sociais e humanos.

Assim como os termos empoderamento, sororidade, entre outros, a palavra representatividade ganhou força nos mais variados debates recentemente. Mas posso afirmar com tranquilidade que ainda estamos na base dessa montanha, que precisa ser escalada em cada um dos seus níveis. Todos queremos nos sentir representados em nossa complexidade, não queremos ficar restritos a estereótipos pejorativos e preconceitos relativos à cor, ao gênero, à orientação sexual ou qualquer outra característica que nos defina apenas parcialmente.

“Minha sexualidade não é a coisa mais interessante sobre mim”, rebate uma das muitas personagens interpretadas pela incrível Tatiana Maslany no seriado Orphan Black ao ser questionada sobre ser homossexual.

A questão é muito profunda, mas vou usar como exemplo ilustrativo para se falar sobre o assunto um vídeo curto gravado por jovens negros norte-americanos tendo seu primeiro contato com o pôster do sucesso de bilheteria “Pantera Negra”*. Extasiados, os rapazes filmaram o cartaz e um deles diz o seguinte: “Então, estamos aqui observando esse pôster foda do filme Pantera Negra e chegamos à seguinte conclusão: é assim que pessoas brancas se sentem o tempo inteiro. Desde o início do cinema. Vocês se sentem empoderados e representados”. Ao que o amigo conclui: “Se eu me sentisse assim o tempo inteiro eu amaria esse país também”. Assista ao vídeo abaixo.

É disso que estou falando. Esse vídeo de 24 segundos é uma mostra clara da importância da representatividade. Homens e mulheres negros querem ser enxergados em sua complexidade. No cartaz em questão, temos o rei de personalidade benevolente, o vilão que luta contra as injustiças que acredita ter sofrido na luta pelo trono, a preta nerd criadora de invenções inimagináveis, a guerreira que abdica até mesmo do amor para lutar pelo que acredita… O espectro humano sendo explorado (mesmo que estejamos falando do fictício reino de Wakanda) e os personagens são interpretados por gente como os rapazes do vídeo. Por gente como eu. As pessoas brancas nem sabem o que é não ter isso em suas vidas, pois praticamente todas as narrativas que acompanhamos são focadas nelas.

Quando falo que ainda temos muito o que evoluir é porque ainda é possível ver uma novela brasileira que se passa na Bahia (segundo o IBGE, estado com população de quase 80% de pretos e pardos) e tem no máximo 2 personagens de destaque que têm a pele negra. Ainda temos predominância esmagadora de narrativas brancas, seja nos Estados Unidos ou no Brasil. Quando criança/adolescente eu era viciada em Malhação, que só foi ter sua primeira protagonista negra há 2 anos (após 21 anos no ar). E ela vivia uma faxineira. Profissão que não é demérito algum, obviamente, mas temos aí um estereótipo carregado de simbolismo. Fica a pergunta: por que a dramaturgia insiste em “encarcerar” o corpo negro em funções subalternas?

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A protagonista Joana foi interpretada pela atriz Aline Dias em 2016 | Foto: Divulgação

Começamos a evoluir e não podemos parar (ou retroceder, como vem acontecendo com as nossas políticas públicas). A representatividade importa (e muito).

*Explicação importante: utilizo um exemplo voltado para a cultura de massa sem necessariamente me aprofundar em outras questões relativas a um “filme de herói blockbuster hegemônico” para focar em uma mensagem recente de maior alcance (o filme faturou até agora 1,344 bilhão de dólares).

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Era apenas uma (me)nina recatada em busca de sonhos infantis. Queria um amor como nas Sem Razões do Amor de Drummond ou nas novelas. Um emprego estável. Talvez até filhos. Queria um final feliz.

O que ela desejava era a solidez das paredes. Duras. Uma vida sem movimento. Só que um dia as paredes começaram a ruir. E não foi devagar. Elas desabaram!

Nina não teve muito tempo pra reagir. Saiu com a roupa do corpo. Era a própria vida ou nada. Então ela descobriu o que realmente importava: seu corpo, sua sobrevivência e seus desejos mais básicos.

Ela estava ali dentro. Vivendo sua vidinha simples. Emparedada, enquadrada. Verdadeiro modelo de perfeição. Mas quando saiu em meio ao desastre, mudou. Era Nina, virou Alice. Questão de sobrevivência e não de escolha.

Alice era o inverso. Era água que saía pelas canos daquela construção. Esse foi o jeito que Nina conseguiu encontrar para fugir. Se desmaterializou. Virou água, ou lama, ou pó. Foi como um lagarta que vira borboleta. Nasceu então: Alice!

mae bebe

Lia foi ao supermercado naquele fim de tarde de quinta-feira comprar alguns produtos que faltavam. Por isso pegou só uma cestinha. Precisava de pão, queijo, um pouco de carne, sabão em pó e shampoo. Provavelmente levaria mais. Era sempre assim. Planejava levar cinco coisinhas, mas sempre saía com pelo menos dez.

Ela tinha quase 50 anos e carregava no rosto muitas marcas da vida. Parecia ser mais velha. E havia motivo pra isso. Lia já havia sofrido muito. Teve um câncer tempos atrás, e no ano anterior seu marido morreu. Mas nada disso a destruiu tanto por dentro quanto a perda do seu filho, há 23 anos.

Não se apresse leitor, ele não havia morrido. O filho de Lia havia sido roubado. Dentro de um hospital público, em plena luz do dia. De forma inexplicável. Lia nunca se perdoara por isso. Mas ela era só uma jovem, em uma cidade grande, para onde havia se mudado a pouco tempo, e abandonada pelo homem que amara. Ela não havia nem conseguido comunicar a ele que estava grávida, porque o maldito simplesmente sumiu do mapa, sem nenhuma explicação.

Na lembrança, apenas alguns segundos em que conseguiu ver o filho, que logo foi levado pelos enfermeiros. Lia teve graves complicações no parto, precisava de cuidados urgentes. Quando enfim acordou, horas depois, a tragédia já havia acontecido. Ninguém sabia explicar onde estava a criança.

O caso teve repercussão na época. Lia foi aos jornais, procurou a defensoria pública, fez tudo o que pôde. Passou sei lá quantas noites sem dormir. Mas a criança nunca fora encontrada. E todos, é claro, esqueceram a história. Menos Lia, que ainda carregava um fio de esperança de encontrar o filho.

Até que o inacreditável aconteceu. Lia estava entrando na fila do supermercado quando viu um jovem que aparentava uns 20 anos. Era um menino bonito, levemente ruivo, que a fazia lembrar um grande amor (e uma grande dor do passado). Ele estava colocando as compras na esteira e quando foi pagar olhou de relance para trás, na direção de Lia, o que foi o suficiente para que ela tivesse certeza. Aquele menino era o seu filho. Era ele. Lia quase morreu por dentro naquele instante.

O jovem pagou e saiu do supermercado. Num ímpeto, quase tendo um ataque cardíaco, Lia largou a cestinha e saiu correndo atrás dele. Ela não sabia o que fazer, mas foi seguindo o menino sabe-se lá pra onde, com o coração na boca e as mãos tremendo.

Um quarteirão depois ele parou em um sinal. Sem pensar, tomada pela emoção, Lia avançou para cima do rapaz e colocou a mão em seu ombro. Ele, surpreso, disse.

– A senhora está precisando de alguma ajuda?

Lia ficou perdida, sem saber o que fazer, lágrimas saltando do rosto. Não conseguia mais se controlar. Ele era tão lindo e tão perfeito. Olhos pequenos como do pai que tanto amou. Nunca amara um homem tanto quanto aquele cretino. E ali, bem na sua frente, o fruto daquele amor, desaparecido a 23 anos.

– A senhora está se sentindo bem? – repetiu o rapaz, já assustado com aquela senhora desconhecida segurando seu ombro com uma força que não parecia pertencer a uma mulher já com certa idade.

Lia sentiu medo. Ele com certeza a acharia louca. Era um menino que parecia estar tão bem, com tanta saúde. Será que era justo entrar na vida dele assim de supetão?

Ficou sem saber o que dizer.

– É que você me lembra muito meu filho que perdi. – ela respondeu com a garganta quase trancada.

– Lamento muito. Quando isso aconteceu? – ele disse.

– Já faz muito tempo… – Lia estava em uma espécie de estado de choque.

O rapaz começou a sentir pena da velha desconhecida e resolveu puxar assunto.

– Como era o nome dele?

– Breno, era Breno – Lia respondeu com uma grande dor no peito, já que há anos não falava aquele nome – E o seu, qual é?

– Vinícius – ele responde.

As lágrimas rolam mais e mais. Por essa ela não esperava mesmo. Vinícius era o nome do pai de seu filho. Aquele homem que tanta felicidade e tanta tristeza lhe trouxera. Que ironia do destino. Que crueldade.

Eles se olham. E um silêncio sepulcral toma conta daquele momento.

O sinal abre e o barulho da rua interrompe a cena. O rapaz não sabe o que fazer. Só pede licença e vai embora. Lia fica sem reação e vê desaparecer assim, do nada, mais um amor de sua vida.

(Pelo menos o filho pediu licença. Porque o pai nem isso. Foi embora sem nem dizer adeus).

 

Esse texto é o segundo capítulo da série “Diálogos em mim”, desenvolvida pela autora Carolina Pessôa. Aguardando pessoas boas que queiram dar um espaço editorial e dramatúrgico para ela. Também sendo publicado no Wattpad (perfil CarolPessoaM). O primeiro episódio da série, neste blog, pode ser lido aqui.

 

Esse texto é outra possibilidade de final para o clássico Torradas Quebradas

 

Nina chegou do trabalho cansada. Tinha outro compromisso, mas desistiu. Foi direto pro banheiro tirar a maquiagem. Não prestou atenção no que fazia e acabou passando removedor de esmalte no rosto. “Caramba, quase vai no olho!” rs

Resolvido o problema, foi tomar banho. Mas depois do shampoo, percebeu que não tinha condicionador. Seu cabelo ficou duro, horrível. Tentou amenizar com um creme. Estava tudo meio confuso, como a vida meio confusa dela, onde outro dia desses estava sentindo como se seu coração fosse “torradas quebradas”.

Mas as soluções iam aparecendo como que num passe de mágica. Ou algum malabarismo tecnológico que só pessoas da área entendem. Daqueles que você acrescenta um código qualquer e “tchum”, uma coisa aparece ou some.

E foi mais ou menos assim que aconteceu. Só que em vez de um código qualquer, a solução foi musical mesmo. Um amigo de Nina entendedor de tecnologia (um sábio) disse que gostava de Queen. Ela então, que estava querendo ouvir algo diferente do de sempre, resolveu escutar e foi dormir. Até que foi acordada pela música: “The show must go on”. Que susto! Abriu os olhos na mesma hora! E lembrou de um momento importante da sua vida em que tocou essa música. Um momento que estava esquecido no fundo da sua memória (ou guardado, bem guardado).

E aí, como em um estalo, percebeu que isso fazia todo sentido. E começou a sentir as torradas se juntarem novamente, ao som da música. Ela, que às vezes era acordada por sonhos fortes, dessa vez foi sacudida pela realidade trazida pela música que tocou no celular.

E a canção dizia: The show must go on! (o show deve – tem que – continuar)

 

 

 

 

palhaça

Outro dia Nina se afundou na mágoa só com simples torradas quebradas. Foi lindo, poético, e meio patético! Uma tristeza que de fato veio do fundo do seu coração. E ainda vez por outra está presente. O caminho da superação é cheio de indas e vindas.

Por outro lado, andou refletindo sobre os sentimentos do seu coração. E percebeu, que ironia, que ela só pode ser MUITO TOLA no amor!

“Você foi um grande teste para eu perceber como sou tola no amor”, pensou.

Mas em vez de se autocriticar ela quer, só por hoje, tentar manter o bom humor e olhar para toda a situação por um outro ângulo. Rir. Ela é capaz de coisas engraçadas também. E se pega pensando:

“Ele é totalmente diferente de mim. Eu amo poemas, ele números. Eu sou hiper comunicativa, ele super fechado. Etc, etc. Tava na cara que não dava né? Mas aí a mulher arrebatadora na paixão que existe escondida em mim imagina algo de outro planeta e se joga pro universo. Ai ai, vai até o alto e depois…o universo devolve pro chão, rs! Afinal, o que você estava buscando (me)nina?” Ela se pergunta e ao mesmo tempo responde.

“Sei lá! Só sei que vi naquelas músicas e naquela conversa sedutora algo assim, meio irresistível. Era como se ele dissesse exatamente o que eu desejava ouvir. Aí pronto, deu nisso!”

Quando ela pensava na situação, por coincidência tocou uma música do querido Jhonny Hooker. Mais uma vez ele! O mestre do rancor. Mas que poeta! Nina não concorda muito com todo aquele excesso, mas ao mesmo tempo, AMA. E Hooker cantou bem dentro do ouvido dela, que estava de fone: “Acha que a sua indiferença vai acabar comigo. Eu sobrevivo. Eu sobrevivo. Você não presta. Ninguém é seu amigo. A solidão vai ser o seu castigo. ALMA SEBOSA”.

E depois veio Chega de Lágrimas, e o coração de Nina virou mesmo um carnaval. Mas diferente do álbum de Hooker, ela não quer fazer macumba para amarrar essa pessoa não. Para ele ter alguma chance, só se fizesse algo bem firme, como Fernando no livro Senhora, de José de Alencar. Mas nah, isso não vai acontecer. Ele é muito “centrado” (ou escroto mesmo). Esquece isso (me)nina.

E ouvindo essas e outras canções ela pensa: “Sou tão maravilhosa. Otário é quem não me quer”. E dá um risinho de lado. E vai rindo mais e mais, e gargalha. E lembra de Marcelo Jeneci, de quem também gosta: “felicidade é só questão de ser”.

“Quero encarar isso tudo que vivi como uma piada meu Deus!”

 

Obs: Esse texto é a primeira continuação de Torradas Quebradas. A próxima será postada em breve, e vai ter uma homenagem ao Queen, por influência de um amigo de Nina. Acompanhem!

 

mulher penhasco

Ela se encontrava aos pés de uma igreja, bem no alto de uma montanha. Uma enorme escadaria levava ao local. Para os fiéis, subir tudo aquilo era prova de fé. Para Alice, apenas um percurso necessário para cumprir seu objetivo: a morte. Escolhera aquele local porque pensou que talvez, com um pouco de sorte, fosse mais fácil se encontrar com Deus por partir dali. Não que ela acreditasse em Deus né? Alice era ateia e estava decidida: se jogaria do alto do penhasco.

Mas antes de desenvolver a história, vamos conhecer Alice. Ela tem uma mente complexa, de outro mundo. Ninguém conhece Alice muito bem, nem ela mesma. Seu cérebro funciona a mil por hora, no 220V. Ela é heroína, é carrasca, é fada, é princesa, é bruxa. Tem tudo e nada dentro de si.

 

Mas já faz um tempo que Alice se perdeu nesses sentimentos. Sofreu demais. Pensou que havia superado. Mas ficou um vazio no peito. Foi isso que a conduziu até aquela pálida construção, em um dia vazio, cinzento. Da cor da sua alma naquele momento.

Ao chegar lá, ela se despiu. Estava com um vestido longo, como sua longa vida de tantos desencontros. E ficou como veio ao mundo. E assim voltaria para onde viera. Nua!

Um vento frio percorria o local naquele fim de tarde de junho. Alice sentiu um frio na espinha e surgiu uma voz na consciência.

– Alice, você está mesmo pronta para isso? – disse a voz

Ela ficou confusa. Sabia que estava triste, devastada por dentro. Mas não louca o suficiente a ponto de ouvir vozes. Mesmo assim respondeu.

– Ninguém nunca está pronta pra nada nessa vida.

– Por que, então, não esperar e pensar um pouco mais? – retrucou a voz

– Já esperei demais. Sonhei demais. Vivi demais. Amei demais…

– Como você está se sentindo?

– Cansada.

Em silêncio, Alice se encaminha para a ponta do morro. Precisa silenciar aquela voz. E acabar com a dor.

– Sabia que quem se mata não quer de fato morrer? E sim acabar com a dor?

– Maldita voz! – pensa Alice, mas não diz nada.

– Não faça nada que vá levar a um arrependimento depois. – insiste a voz.

– Não há arrependimento depois da morte. Simplesmente acaba. É como dormir, só que para sempre.

– Tem certeza? – ela não desiste.

– Eu não sei por que de repente te devo satisfações! – protesta Alice

– Porque você quer, Alice. Você me chamou aqui. Como nos sonhos. Eu sou uma projeção do seu inconsciente falando contigo. E você não quer partir. Você quer ficar, ser feliz. Viver.

– Viver mais? Eu já vivi além da cota. Meu cartão está estourado. Meu pote está cheio, prestes a transbordar. – Alice chora.

– Transborde de amor, Alice. Transborde de vida. Responda aos desafios com o dobro de energia. Você tem isso dentro de si. Você sabe disso.

– Acho que me viciei na tristeza.

Alice enxuga as lágrimas, recua, pensa.

– Me viciei na tristeza só pra não dar o braço a torcer. Sofrer se tornou mais cômodo que superar.

A voz não responde. No coração, Alice já sabe o que ela diria. Recolhe as roupas, olha para a igreja. É ateia e nada vai mudar. Mas hoje, só por hoje, ela vai entrar e tentar aprender algo diferente: rezar. Mas que isso, ela vai tentar sobreviver. E renascer.

Esse texto faz parte da série “Diálogos em mim”, desenvolvida pela autora Carolina Pessôa. Aguardando pessoas boas que queiram dar um espaço editorial e dramatúrgico para ela. Também sendo publicado no Wattpad.

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